AGRONEGÓCIO

Plano Safra reduz juros para recuperar pastagens e elevar a produtividade da pecuária: quais os efeitos para o produtor na prática?

Foto: Embrapa O Plano Safra 2026/2027, divulgado no final do mês passado, trouxe uma medida que pode ampliar a produtividade…

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O Plano Safra 2026/2027, divulgado no final do mês passado, trouxe uma medida que pode ampliar a produtividade das fazendas. Ela consiste em um ‘prêmio financeiro’ para aqueles que adotarem práticas de baixo carbono dentro das propriedades.

Funciona da seguinte forma: por meio do RenovAgro, programa do governo federal focado em agricultura sustentável, o produtor que optar por investir na recuperação dos solos utilizados e transformar as pastagens degradadas, terá acesso a uma taxa de juros mais baixa de 8,5% ao ano – o número é bem menor quando comparado aos 12,5% cobrados no financiamento geral das grandes lavouras, previstas no novo programa.

No entanto, especialistas se dividem quanto aos efeitos dessa flexibilização. Na visão de Pedro Gonçalves, analista de mercado da Scot Consultoria, ampliar os recursos disponíveis não necessariamente significa que acontecerá o efeito esperado. 

“O recurso tem que chegar para quem precisa usá-lo. Uma pecuária que diminui a quantidade de áreas degradadas é uma pecuária que dilui seu custo de produção com produtividade e, consequentemente, ganha mais. Melhorar a capacidade de suporte, melhorar a saúde do solo e da área, ganhar mais condições de desenvolvimento, engorda e terminação do gado, é o que a pecuária precisa”, aponta.

Ainda dentro da linha do RenovAgro, um outro destaque se refere ao prazo total de pagamento do crédito: 12 anos, sendo oito de carência. Ou seja, na prática, o pecuarista ou o agricultor que buscar financiamento para adequar a propriedade às exigências ambientais, terá praticamente uma década para produzir e colher os resultados antes mesmo de pagar a primeira parcela da dívida principal.

Mato Grosso pode ser um dos estados mais beneficiados

No caso de Mato Grosso, o maior polo de criação de gado do país, as novas condições do Plano Safra podem favorecer ainda mais o produtor. Por lá, segundo a Associação dos Criadores do Estado (Acrimat), há uma parcela expressiva de pastagens degradadas – não por desinformação do pecuarista, mas pela falta de capacidade de investimento que a atividade gera.

“Os solos de Mato Grosso respondem à correção e à adubação, e com isso certamente ficaremos ainda mais produtivos”, pontua Francisco Manzi, diretor técnico da Acrimat. Na sua visão, uma pastagem recuperada pode aumentar a capacidade de lotação ou a produção de carne por hectare em comparação com uma área degradada.

“O que vai limitar o incremento é o conhecimento do produtor, capacidade de investimento e mercado para absorver essa oferta maior”, acrescenta Manzi. 

Recuperar pastagens pode elevar a lotação em até 250%, aponta Embrapa

Segundo estimativas da Embrapa Gado de Corte, a média anual das pastagens brasileiras é de uma taxa de lotação de um animal por hectare, com uma produtividade de cinco arrobas por hectare. Já as pastagens degradadas apresentam valores médios anuais em torno de 0,5 animal por hectare com produtividade inferior a 3 arrobas por hectare. 

“Com a recuperação dessas pastagens, a depender do nível de degradação e do tipo de estratégia adotada na recuperação, as taxas de lotação e produtividades podem aumentar de 50 a 250% da média nacional, mostrando o potencial e a importância desta ação para a produção de carne brasileira”, ressalta Roberto Giolo, pesquisador em sistemas integrados de produção e pecuária de baixo carbono da Embrapa.  

Neste sentido, a recuperação de uma pastagem degradada pode significar também um aumento na produção sem a necessidade de abrir novas áreas. Para Giolo, ampliar a produtividade de uma grande área já aberta, disponível e sem a necessidade de desmatamento da vegetação nativa é ‘o maior trunfo do agro brasileiro’.

“Com a recuperação destas áreas e o manejo adequado posterior (e isso é fundamental, pois não adianta recuperar e continuar no manejo anterior que levou à degradação), é possível uma pecuária mais eficiente, produtiva e rentável para o produtor, e ainda com menor impacto ambiental, em especial, com menor emissão de carbono”, destaca. 

Carlos Cogo, sócio-diretor da consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio, observa que uma pastagem bem manejada, com forrageira adaptada e solo corrigido, consegue suportar de duas a quatro vezes mais animais por hectare do que uma pastagem degradada. 

“Na prática, dentro da fazenda, isso significa que o pecuarista pode aumentar o rebanho — ou intensificar o ciclo de terminação — sem precisar incorporar nenhuma área nova ao sistema produtivo”, destaca. Do ponto de vista ambiental, isso também é importante porque desvincula crescimento de produção de desmatamento.

“O Brasil é hoje pressionado por barreiras não tarifárias — especialmente o regulamento da União Europeia sobre desmatamento — e demonstrar que consegue crescer em produção pecuária sem abrir área nova é um diferencial competitivo que vai além do mercado doméstico”, acrescenta.

Quais investimentos trazem mais retorno ao pecuarista?

Para além das condições de crédito mais favoráveis para investimentos na recuperação e conversão de pastagens, especialistas apontam que o produtor deve ser estratégico, isto é, focar em investimentos que tragam maior retorno em produtividade e rentabilidade.

Giolo, da Embrapa, aponta que a prática de recuperação direta da pastagem é uma das mais adotadas pelos pecuaristas com o acesso a essa linha de financiamento do Plano Safra – e que pode trazer benefícios para a propriedade.

Segundo ele, a prática envolve a simples retirada de animais do pasto para permitir sua recuperação, como o uso de práticas mecânicas (subsolagem e retirada de cupinzeiros) e agronômicas (uso de insumos como defensivos agrícolas, corretivos, fertilizantes e sementes).

“De modo geral, quanto maior o nível de degradação da pastagem, maiores serão os custos com o processo de recuperação. Entretanto, é de suma importância que o manejo de manutenção da pastagem recuperada seja baseado nas boas práticas agropecuárias, em especial atenção ao manejo do pastejo, para se evitar o ciclo vicioso da degradação da pastagem”, destaca.

“Além disso, a escolha da forrageira adequada para a região e propriedade, genética animal, além da integração lavoura-pecuária, podem ser importantes em um segundo processo de intensificação da atividade”, acrescenta Gonçalves, da Scot Consultoria. 

Especialista alerta para desafios no financiamento

A possibilidade de o produtor conseguir transformar o crédito do Plano Safra em ganho efetivo de produtividade ainda é um desafio – sobretudo em uma atividade em que, para investir em tecnologia, há a concorrência de outras áreas de investimento – aponta Gonçalves, da Scot.

“Uma taxa Selic alta, com uma taxa de juros que às vezes não se torna tão atrativa para o produtor em uma linha de crédito, pode ser um grande limitante de uso dessa fonte de recursos para melhorar o desempenho produtivo da propriedade. Você não investe em algo que pode acabar não dando retorno. Não é viável economicamente. Logo, torna-se inviável de produzir”, finaliza. 

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Fonte: Canal Rural

Perguntas frequentes

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André Moura

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