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A disputa mudou de camada: o que esta semana revela sobre o futuro dos pagamentos

Nos últimos dias, três movimentos aconteceram em paralelo de uma forma que raramente aconteceria por acaso. A Visa lançou uma…

Nos últimos dias, três movimentos aconteceram em paralelo de uma forma que raramente aconteceria por acaso. A Visa lançou uma plataforma completa para que bancos, fintechs e empresas de cripto operem stablecoins sem precisar construir nada do zero.

A Samsung demonstrou, no palco do Galaxy Unpacked, o envio e recebimento de USDC dentro do Samsung Wallet, carteira embarcada em centenas de milhões de dispositivos.

E a Circle anunciou a compra do portfólio de patentes de blockchain da IBM: mais de 680 famílias de patentes e quase mil patentes concedidas cobrindo tecnologia fundamental de blockchain, banking e seguros.

O que une essas histórias aparentemente dispersas é um único fio: a disputa saiu do token e subiu de camada. Emitir uma stablecoin deixou de ser o diferencial. A tecnologia existe, está auditada e opera em produção.

O que está em jogo agora é quem controla a plataforma de operação, a licença regulatória e a distribuição até o usuário final. E para o Brasil, que tem um dos mercados de stablecoins mais ativos do mundo, esse momento importa mais do que parece.

Quando a rede vira operadora

A Visa Stablecoin Platform (VSP) oferece a instituições financeiras um ambiente único e gerenciado para emitir, resgatar, custodiar e transferir stablecoins. A lógica é a mesma que fez a Visa dominar os cartões: não competir com os bancos, mas se tornar a infraestrutura pela qual todos eles operam.

O movimento confirma uma leitura que vinha se desenhando nos últimos meses. A rede não está apostando em um token específico, está apostando em ser a camada operacional de todos eles. Para bancos regionais e fintechs que não têm equipe nem apetite para construir infraestrutura própria, a barreira pode ser facilitada agora.

A distribuição chega ao bolso

Um dia depois, a Samsung usou o Galaxy Unpacked para demonstrar funcionalidades de stablecoin dentro do Samsung Wallet: envio, recebimento e funding de conta com USDC. Ainda não há data de lançamento nem plano detalhado de rollout, é um sinal de intenção, não um produto acabado. Mas o sinal tem um peso.

O Samsung Wallet já vem instalado no ecossistema de dispositivos da empresa, e colocar dólares digitais a um toque de distância de centenas de milhões de usuários resolve exatamente o problema que o setor ainda não resolveu: distribuição no varejo.

Washington entre dois calendários

No campo regulatório, a semana mostrou dois relógios andando em velocidades diferentes.

No Congresso, o líder da maioria no Senado, John Thune, afirmou que não espera votação da legislação de estrutura de mercado, o Clarity Act, antes do recesso de agosto.

O debate segue ativo dentro do próprio sistema financeiro: David Solomon, CEO do Goldman Sachs, manifestou apoio ao avanço do projeto, enquanto parte das associações bancárias pede ajustes no tratamento de recompensas atreladas a stablecoins e na dinâmica de depósitos.

Bancos com grandes operações de trading, custódia e mercados tokenizados enxergam oportunidade, instituições mais dependentes de depósitos de varejo pedem cautela. É uma discussão legítima de modelo de negócio, não de tecnologia.

Enquanto isso, os reguladores seguem implementando o que já é lei. O OCC publicou na segunda-feira a proposta de framework para processar os pedidos de autorização de emissores de payment stablecoins sob o GENIUS Act.

A mensagem prática: independentemente do ritmo do Congresso, a porta de entrada formal para emissores regulados nos Estados Unidos está sendo construída agora.

O dólar digital ganha um concorrente regulado

Em Hong Kong, a stablecoin HKDAP, atrelada ao dólar de Hong Kong e liderada por uma joint venture com participação do Standard Chartered, pode começar a ser negociada já nesta sexta-feira, sob o novo regime local de licenciamento.

Hoje, praticamente todo o market cap global de stablecoins é denominado em dólar americano. Uma moeda estável regulada, emitida por um consórcio bancário e atrelada a outra divisa, é um teste relevante de como outras jurisdições pretendem participar dessa infraestrutura sem depender exclusivamente do dólar digital.

Os números por trás do movimento

Os dados da semana ajudam a dimensionar a transição. O volume ajustado de transações com stablecoins atingiu recorde de US$ 1,79 trilhão em junho, segundo dados on-chain compilados pela Visa, alta de 125% em um ano.

O USDC, da Circle, respondeu por cerca de 70% desse volume no primeiro semestre. Ao mesmo tempo, o market cap total do setor recuou para cerca de US$ 310 bilhões, devolvendo US$ 10 bilhões desde o pico de maio.

A leitura conjunta é menos contraditória do que parece: o capital especulativo sai, o volume transacional cresce. É o perfil de uma tecnologia migrando de ativo para infraestrutura.

O que isso significa para o Brasil

O Brasil aparece nesse cenário com números próprios. Dados do Banco Central mostram que brasileiros adquiriram US$ 14,7 bilhões em stablecoins no exterior no primeiro semestre de 2026, mais que o dobro dos US$ 6,4 bilhões do mesmo período do ano passado. Segundo a Receita Federal, stablecoins já respondem por cerca de 80% do volume de criptoativos declarado no país.

É esse volume que o novo arcabouço regulatório passa a organizar. As regras cambiais publicadas pelo Banco Central entram em vigor em 1º de outubro, trazendo as operações com stablecoins para dentro do perímetro de câmbio, com requisitos de autorização, reporte e segregação de recursos.

O Brasil, que avançou cedo na regulação de ativos virtuais, chega a essa fase com um mercado dimensionado, regras definidas e calendário claro, uma combinação que poucos países têm.

Para empresas brasileiras que operam pagamentos internacionais, as perguntas da semana são concretas. Se a Visa oferece a plataforma, a Samsung oferece a tela e o OCC define a porta de entrada, qual camada dessa infraestrutura sua operação vai ocupar? E o que muda no planejamento quando o marco cambial brasileiro tem data marcada?

Essas perguntas não são do futuro. São do calendário deste trimestre.

Sobre o autor

Caio Barbosa é fundador e co-CEO da Lumx, empresa brasileira de infraestrutura blockchain voltada a soluções de pagamento com uso de stablecoins. Foi eleito Forbes Under 30 em 2022 e selecionado para o Latitud Fellowship, programa que reúne os empreendedores mais promissores da América Latina.

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Perguntas frequentes

Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.

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Igor Sales

Igor Sales

Igor Sales integra a equipe editorial do Estrato, vertical da rede Estrato, na função de Repórter de Cripto e Agro. O escopo permanente de cobertura inclui criptoativos e agronegócio, com atenção ao leitor brasileiro que busca contexto factual, datas oficiais e implicações práticas. Na produção diária, prioriza fontes primárias (órgãos públicos, balanços, papers e documentos oficiais), cruza pelo menos duas referências independentes quando o tema é contestado e evita manchetes que prometam certeza onde há incerteza. Critérios de qualidade: lead com o fato principal, atribuição clara de autoria da equipe Estrato, atualização com selo quando há mudança material e linguagem acessível sem simplificar demais o risco ou o contexto. Trabalha sob revisão da mesa editorial e do editor-chefe do portal. Matérias YMYL recebem segunda leitura antes da publicação e podem ser atualizadas quando surgem novos dados oficiais. Limites: este perfil descreve o papel editorial na marca Estrato. O conteúdo publicado é informativo e não constitui aconselhamento médico, financeiro, jurídico ou profissional personalizado. Transparência ao leitor: metodologia em /metodologia/, ética em /etica-editorial/, correções em /correcoes/, equipe em /equipe/ e canal em /contato/ ([email protected]). Na página-mãe da rede, a bio ampliada e o arquivo de matérias ficam em estrato.cc/blog/, com link para o arquivo do autor em cada portal.

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