ECONOMIA

Antimicrobianos: culpa da União Europeia ou o Brasil não fez a lição de casa?

Um estudo da FGV Earth, intitulado “Exigências europeias sobre antimicrobianos: contexto regulatório, comparações internacionais e desafios para o Brasil” reacendeu…

Um estudo da FGV Earth, intitulado “Exigências europeias sobre antimicrobianos: contexto regulatório, comparações internacionais e desafios para o Brasil” reacendeu o debate sobre a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal para a União Europeia.

Afinal, trata-se de mais uma barreira comercial imposta pelo bloco europeu ou o país falhou em acompanhar a evolução das exigências sanitárias internacionais?

Na avaliação dos autores, David Uip e Leonardo Munhoz, a segunda hipótese é a mais consistente. O documento argumenta que a decisão da União Europeia está menos relacionada a um movimento protecionista e mais à dificuldade brasileira em antecipar mudanças regulatórias e comprovar que seu sistema sanitário oferece garantias equivalentes às exigidas pelo mercado europeu

Segundo o estudo, diferentemente do Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR), cuja compatibilidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) ainda é alvo de debates, as restrições ao uso de antimicrobianos foram construídas ao longo de quase três décadas. As exigências começaram a ser aplicadas aos próprios produtores europeus antes de serem estendidas aos países que desejam exportar para o bloco.

A publicação lembra que a União Europeia proibiu gradualmente o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento, reformulou sua legislação sobre medicamentos veterinários em 2019, reservou determinadas classes de antibióticos exclusivamente à medicina humana em 2022 e, no ano seguinte, passou a exigir que países terceiros comprovassem condições sanitárias equivalentes às dos produtores europeus. Nesse contexto, o Brasil acabou excluído da lista de países autorizados a exportar determinados produtos de origem animal ao mercado europeu.

Os autores reconhecem que o Brasil avançou recentemente na agenda com a publicação da Portaria SDA/MAPA nº 1.617/2026, que proibiu a importação, fabricação, comercialização e o uso de determinados antimicrobianos como aditivos melhoradores de desempenho que também possuem potencial de uso na medicina humana.

No entanto, o estudo considera que a medida ainda não é suficiente para demonstrar equivalência com o modelo europeu, uma vez que alcança um conjunto mais restrito de substâncias e não cria mecanismos robustos de rastreabilidade e verificação do cumprimento das regras.

Na avaliação da FGV Earth, o principal desafio brasileiro não é apenas adaptar sua legislação, mas comprovar que ela é efetivamente cumprida. O estudo argumenta que a existência de normas restritivas, por si só, não basta para atender às exigências da União Europeia.

Também são necessários sistemas auditáveis de rastreabilidade, monitoramento do uso de antimicrobianos, registros de prescrições veterinárias e mecanismos capazes de gerar evidências de conformidade ao longo de toda a cadeia produtiva.

Os pesquisadores observam ainda que outros grandes exportadores seguiram caminhos diferentes, mas conseguiram atender às exigências europeias. A Argentina aproximou sua legislação do modelo da União Europeia ao ampliar as restrições ao uso de antimicrobianos, enquanto os Estados Unidos apostaram no fortalecimento da supervisão veterinária, da fiscalização e dos sistemas de monitoramento. Em ambos os casos, o objetivo foi demonstrar às autoridades europeias que seus sistemas oferecem garantias sanitárias equivalentes.

O estudo também avalia que as chances de o Brasil reverter a decisão por meio de uma disputa na OMC são reduzidas. Segundo os autores, a política europeia está respaldada por décadas de produção científica, recomendações de organismos internacionais de saúde e é aplicada tanto aos produtores do bloco quanto aos exportadores estrangeiros, o que dificulta sustentar uma alegação de discriminação.

Para os pesquisadores, a principal lição do episódio é que o Brasil continua adotando uma postura predominantemente reativa diante das mudanças regulatórias internacionais. Na avaliação deles, negociações diplomáticas, desacompanhadas de avanços concretos na legislação, na fiscalização e na rastreabilidade, tendem a produzir resultados limitados para recuperar o acesso ao mercado europeu.

Perguntas frequentes

Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.

Sobre o que trata “Antimicrobianos: culpa da União Europeia ou o Brasil não fez…”?
Um estudo da FGV Earth, intitulado “Exigências europeias sobre antimicrobianos: contexto regulatório, comparações internacionais e desafios para o Brasil” reacendeu o debate sobre a exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar determinados produtos…
Por que Economia importa agora?
O tema impacta decisões e debates cotidianos ligados a Economia. A redação destaca fatos, datas e implicações práticas sem substituir orientação profissional personalizada.
Quem edita o conteúdo do Estrato?
A cobertura é produzida e revisada pela equipe editorial do Estrato, com editor-chefe responsável pela linha editorial. Conheça a redação em https://estrato.cc/equipe/.
Quais fontes o Estrato prioriza?
Priorizamos fontes primárias (órgãos oficiais, balanços, estudos revisados, documentos públicos) e cruzamos informações antes da publicação, conforme a política editorial.
Como solicitar correção de uma matéria?
Envie o pedido pela página de Correções (https://estrato.cc/correcoes/) ou Contato (https://estrato.cc/contato/). Erros materiais são corrigidos com registro da atualização.
O conteúdo constitui aconselhamento profissional?
Não. As matérias têm caráter informativo e jornalístico. Decisões financeiras, de saúde, jurídicas ou educacionais devem considerar profissionais habilitados e a sua situação particular.
Onde acompanhar a política editorial do Estrato?
Metodologia, ética e transparência estão em https://estrato.cc/metodologia/, https://estrato.cc/etica-editorial/ e https://estrato.cc/politica-editorial/.
Como o Estrato trata temas sensíveis (YMYL)?
Temas que afetam dinheiro, saúde e bem-estar recebem revisão editorial reforçada, disclaimer visível e links para páginas institucionais de metodologia e correções. Portal: https://estrato.cc/
WhatsApp X LinkedIn
Compartilhar: LinkedIn
Caio Nunes

Caio Nunes

Caio Nunes integra a equipe editorial do Estrato, vertical da rede Estrato, na função de Repórter de Negócios. O escopo permanente de cobertura inclui empresas, M&A e resultados, com atenção ao leitor brasileiro que busca contexto factual, datas oficiais e implicações práticas. Na produção diária, prioriza fontes primárias (órgãos públicos, balanços, papers e documentos oficiais), cruza pelo menos duas referências independentes quando o tema é contestado e evita manchetes que prometam certeza onde há incerteza. Critérios de qualidade: lead com o fato principal, atribuição clara de autoria da equipe Estrato, atualização com selo quando há mudança material e linguagem acessível sem simplificar demais o risco ou o contexto. Trabalha sob revisão da mesa editorial e do editor-chefe do portal. Matérias YMYL recebem segunda leitura antes da publicação e podem ser atualizadas quando surgem novos dados oficiais. Limites: este perfil descreve o papel editorial na marca Estrato. O conteúdo publicado é informativo e não constitui aconselhamento médico, financeiro, jurídico ou profissional personalizado. Transparência ao leitor: metodologia em /metodologia/, ética em /etica-editorial/, correções em /correcoes/, equipe em /equipe/ e canal em /contato/ ([email protected]). Na página-mãe da rede, a bio ampliada e o arquivo de matérias ficam em estrato.cc/blog/, com link para o arquivo do autor em cada portal.

Deixe um comentário