NEGÓCIOS
Plataformas ampliam disputa além do delivery
Aplicativos de delivery ajustam operação para a Copa Edilson Dantas/O Globo A disputa entre plataformas de mobilidade e delivery no…

Aplicativos de delivery ajustam operação para a Copa
Edilson Dantas/O Globo
A disputa entre plataformas de mobilidade e delivery no Brasil ganhou um novo capítulo na terça-feira (28 de julho), quando a 99 anunciou a expansão do 99Compras para a cidade de São Paulo e em mais de 20 municípios da região metropolitana, acompanhada de um investimento de R$ 100 milhões no Estado. O movimento reflete a estratégia das empresas de ampliar a oferta de serviços para aumentar a frequência de uso de seus aplicativos.
Controlada pela chinesa Didi Global, a empresa reúne no mesmo aplicativo transporte de passageiros, entregas, conta digital e compras em categorias como supermercado, farmácia e pet shop. Segundo a companhia, a ampliação dessas verticais elevou em 38% o número de usuários ativos diários em 2026 ante o ano anterior. Hoje, 60% da base utiliza mais de um serviço.
“O brasileiro já sabe que consumir on-line é mais barato em diversas categorias. Queremos tornar a compra conveniente e acessível também para as classes C e D. Neste momento, estamos menos preocupados em atingir o ponto de equilíbrio financeiro e mais em construir uma operação sustentável”, afirmou ao Valor, Talita Poleto, diretora comercial da 99Compras.
A chegada a São Paulo marca a principal expansão do serviço desde o lançamento em Goiânia, em março. A operação reúne mais de 3 mil parceiros, entre eles Carrefour, Americanas e Cobasi.
A estratégia da 99 contrasta com a do iFood. Enquanto a empresa da Didi concentra os serviços em um único aplicativo, o iFood aposta na integração de plataformas independentes. Desde janeiro, mantém parceria com a Uber, que permite aos usuários acessar corridas e delivery entre os dois aplicativos. E também ampliou conexões com empresas do grupo Prosus, como a Decolar.
“O futuro do consumo no Brasil não passa pela construção de um superapp, mas por um ecossistema de multiapps. O consumidor continuará usando aplicativos especializados para diferentes necessidades, e nosso papel é conectar essas jornadas sem precisar internalizar todos os serviços”, disse Paula Ritto, vice-presidente de marketplace & growth do iFood.
Embora adotem estratégias diferentes, as empresas buscam ampliar a frequência de uso dos aplicativos e diversificar as receitas.
Para Bruno Rossini, diretor sênior de comunicação da 99, a ideia é transformar o serviço em um hábito de consumo, e não em uma iniciativa pontual. “O que a gente está tentando fazer é uma mudança definitiva. Não quero criar um aplicativo temporário para as pessoas comprarem e esse serviço deixar de existir”, disse.
Na avaliação de especialistas, porém, preço e novas funcionalidades são apenas parte da estratégia. Um estudo da Kobe, plataforma de comércio móvel mostra que, embora 76% dos consumidores baixem aplicativos motivados por promoções, 59% deixam de utilizá-los por causa de experiências consideradas confusas. “O desafio é transformar o download em recorrência e presença real na rotina”, afirmou Fábio Barboza Filho, presidente da Kobe.
A estratégia também encontra respaldo na consolidação do uso desses aplicativos no país. Dados da pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box, realizada em novembro de 2025, mostram que a parcela de brasileiros que já utilizou corridas por aplicativo subiu de 75%, em agosto de 2019, para 90%. Em um mercado já consolidado, Uber e iFood seguiam líderes em mobilidade e delivery, enquanto a disputa nas corridas por motocicleta era mais equilibrada, com 48% de preferência para a Uber e 38% para a 99.
É justamente fora desses mercados mais maduros que as plataformas concentram hoje seus principais investimentos. Farmácia e mercado despontam como algumas das frentes de maior expansão. No 99Compras, medicamentos representam 28% dos pedidos em Goiânia e 22% na Grande São Paulo, com tempo médio de entrega de 24 minutos, segundo a empresa. No iFood, as categorias de mercado e farmácia cresceram 58,2% em volume de pedidos entre janeiro e maio deste ano.
Além de ampliar categorias, as plataformas passaram a incorporar serviços financeiros para aumentar o gasto e a frequência de uso. No iFood, o parcelamento foi expandido para todo o aplicativo em 2025 por meio do iFood Pago. Segundo a empresa, a modalidade gerou 1,3 milhão de pedidos parcelados nos dois primeiros meses, mais que o dobro do período anterior.
O parcelamento também reflete uma característica do consumo no país. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), as compras parceladas sem juros responderam por 42,7% das transações com cartão de crédito no terceiro trimestre de 2025.
No 99Compras, os pagamentos ainda são feitos via Pix ou cartão à vista, mas a empresa estuda integrar o serviço à 99Pay. “O consumidor brasileiro está acostumado a fazer grandes compras abastecedoras parceladas. Estamos atentos para isso”, afirmou.
A expansão do modelo multisserviços também altera a dinâmica de operação das plataformas e de seus parceiros. Segundo a 99, 36% dos 2,5 milhões de condutores já atuam em mais de uma categoria, alta de 54,9% desde 2024.
Para a Amobitec, que representa as plataformas, o movimento reduz deslocamentos ociosos e amplia as possibilidades de geração de renda. A Associação de Motofretistas do Brasil (Amabr), por outro lado, afirma que a atuação em múltiplas frentes também reflete a necessidade de complementar renda diante dos baixos ganhos. Com a ampliação da operação, aumentam as demandas por investimentos em segurança e logística. A 99 prevê aplicar mais de R$ 145 milhões em segurança em 2026.
Fonte: Valor Empresas
Perguntas frequentes
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