INTERNACIONAL
Planalto deve ter frieza ante provocações de Trump e Milei
Mark Schiefelbein/AP Photo O governo brasileiro não conta com a menor simpatia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nem…

Mark Schiefelbein/AP Photo
O governo brasileiro não conta com a menor simpatia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nem de seus fervorosos adeptos na América Latina, entre os quais se destaca o mandatário argentino, Javier Milei. São dados da realidade com os quais o Planalto terá de conviver da melhor e mais serena maneira possível, buscando preservar certos pontos vitais: EUA e Argentina são o segundo e o terceiro maiores parceiros comerciais do país. O clima eleitoral no Brasil não favorece posições sóbrias, especialmente quando os dois candidatos podem ganhar pontos junto aos eleitores com a exploração da disputa diplomática. Pela primeira vez nas eleições presidenciais desde a redemocratização, há interferência externa na disputa. Apesar de tudo, candidatos e presidentes passam, o Brasil fica. A diplomacia busca construir marcos de atuação com solidez temporal que contemplem essas circunstâncias.
A ofensiva contra o Brasil, que parte da Casa Branca, está sendo instrumentalizada com alarido pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que tem ambições de suceder a Donald Trump na Presidência, chance ampliada pelo baixo perfil de atuação do vice-presidente, J. D. Vance. Rubio deixou muito claro em declarações recentes que o Brasil não está na lista dos aliados americanos no continente e age de acordo. O caso do embaixador Daniel Perez foi uma provocação evidente. Não houve respeito à praxe consagrada de enviar previamente e em sigilo o nome do escolhido para o “de acordo” do governo brasileiro, nem decorreu um prazo extenso (a indicação foi no começo de junho) para que o governo brasileiro pudesse ser acusado de protelação intencional por motivos ideológicos.
Os pretextos têm que ser levados em conta no contexto de antagonismos. Um enviado do Departamento de Estado, o assessor Darren Beattie, teve seu visto revogado depois de pretender, sem fazer parte dos objetivos oficiais de sua vinda ao Brasil, visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado. Dois outros enviados tiveram a mesma sorte, e o jornal Washington Post publicou que pretendiam avaliar o sistema eleitoral brasileiro. Em função dessas recusas, a Casa Branca retirou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, em uma ação sem precedentes na história das relações entre os dois países.
O governo brasileiro deveria comunicar claramente aos EUA o que não permitiria que seus enviados fizessem. Quanto aos caçadores de irregularidades eleitorais, poderia tê-los deixado seguir seus roteiros, porque os argumentos de fraudes com urnas eletrônicas são um velho e ineficaz discurso bolsonarista, que mal serve de motivo, embora o governo americano possa inventar qualquer pretexto para agir contra o país.
Interferências do tipo são constantes e mudam de sinal de acordo com preferências políticas. Durante a ditadura militar, o governo de Jimmy Carter fez várias incursões para ouvir representantes de movimentos de oposição no país. Antes de Carter visitar o Brasil, em 1978, sua esposa Rosalynn, um ano antes, se encontrara com Dom Paulo Evaristo Arns e se informara sobre a existência de tortura a presos políticos. As visitas tiveram efeitos políticos relevantes no desgaste do regime, ao contrário do que possam provocar relatos sobre urnas eletrônicas feitos por emissários americanos enviesados. Eles não precisariam ter sido importunados em sua missão inócua.
Ataques perfunctórios vieram também da vizinha Argentina. As diatribes de Milei contra Lula são velhas e sua participação na convenção de Flavio Bolsonaro, para apoiá-lo, nada conta de novo. Milei já havia faltado a uma reunião de Cúpula do Mercosul em 8 de julho de 2024 para participar de uma conferência de ação conservadora na companhia do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos. A preferência eleitoral, pelo manual diplomático, não deve ser manifesta nas relações bilaterais, mas o PT e os presidentes eleitos pelo partido nunca deixaram de manifestar predileção por candidatos peronistas, e Lula visitou Cristina Kirchner após condenação dela por corrupção, além de a isentar de culpa.
Os ataques de Trump e Milei não deixarão de ocorrer e possivelmente se intensificarão durante o período eleitoral. Os interesses da campanha eleitoral de Lula deveriam ser apartados dos interesses do presidente da República, que representa os da nação. O esfriamento praticamente inevitável das relações políticas não deveria contaminar os demais elos do convívio entre países, em especial os comerciais, que precisam ser preservados. Há hoje um esforço de convencimento, com apoio de empresários americanos, para suavizar ao máximo possível as tarifas punitivas e injustas de Trump aplicadas ao Brasil. Os arroubos de Milei não têm afetado as transações entre as duas maiores economias do Mercosul e deveriam ser objeto de notas de repúdio firmes, acompanhadas de elegante indiferença em relação a ofensas previsíveis.
Alvo de constante pressão diplomática, mais ou tão grave como a do Brasil, a esquerdista Claudia Scheinbaum, presidente do México, tem exercido com maestria a arte de resistir às investidas de Trump, sem rompantes retóricos e com manobras diplomáticas defensivas bem calibradas. Sua receita, de altivez e sobriedade, deveria valer também para o Planalto.
Fonte: Valor Econômico
Perguntas frequentes
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