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Esqueça o preço do Bitcoin

Em maio de 2017, milhares de pessoas se reuniram em Nova York para o Consensus. Naquela semana, o Bitcoin saltou…

Em maio de 2017, milhares de pessoas se reuniram em Nova York para o Consensus. Naquela semana, o Bitcoin saltou de cerca de US$ 2 mil para US$ 2,5 mil. Era difícil falar de outra coisa. Quanto poderia valer? US$ 5 mil? US$ 10 mil? Enquanto todos olhavam o placar, alguns estavam construindo o estádio.

Naquele mesmo ano, em Stanford, pesquisadores e desenvolvedores discutiam capacidade, custos, segurança e formas de fazer o Bitcoin funcionar em escala. Não estavam tentando descobrir quanto ele valeria. Estavam tentando descobrir o que seria possível fazer com ele.

Quase dez anos depois, continuamos fascinados pelo placar. Primeiro perguntávamos quanto valeria o Bitcoin. Depois, quantos trilhões de dólares seriam tokenizados. Agora, quanto valor a inteligência artificial irá criar. Talvez as três perguntas tenham o mesmo problema: medimos quanto existe quando deveríamos observar quanto se movimenta.

Um novo relatório da Pantera sobre tokenização traz um dado interessante. Entre 110 produtos tokenizados analisados, os de acesso aberto representavam apenas 41% do valor, mas respondiam por 99,8% do volume negociado em junho.

A diferença é enorme e talvez diga mais sobre o futuro da tokenização do que o número de trilhões de dólares que eventualmente serão colocados em blockchain.

Tokenizar US$ 1 bilhão aumenta em US$ 1 bilhão o estoque de ativos tokenizados. Só que isso, sozinho, não cria liquidez, distribuição ou mercado. O ativo pode continuar praticamente parado. Tokenizar um ativo não é criar um mercado.

O mercado começa quando esse ativo muda de comportamento: quando pode circular com facilidade, ser usado como garantia, financiar outra posição ou se combinar com outros ativos e contratos.

Isso já aconteceu antes. Em 1866, um cabo telegráfico passou a conectar de forma permanente Nova York e Londres pelo Atlântico. Uma informação que podia levar dias para atravessar o oceano passou a viajar em minutos. As ações não mudaram. O que mudou foi a velocidade da informação.

Um ano depois, Wall Street ganhou outra inovação: o ticker. Pela primeira vez, cotações podiam chegar continuamente aos escritórios por uma máquina. O investidor não precisava mais estar fisicamente no pregão para saber o último preço. De novo, o ativo era o mesmo. O mercado ao redor dele é que tinha mudado.

É isso que torna a discussão atual interessante. Uma ação precisa de compradores, vendedores e facilidade para negociar. Um título de renda fixa precisa permitir aplicações e resgates eficientes.

Um ativo usado como garantia precisa poder ser transferido e liquidado rapidamente. Colocar todos eles em blockchain não resolve automaticamente esses problemas. Cada mercado precisa de uma infraestrutura que permita ao ativo funcionar melhor.

Hoje, de São Paulo, compro em segundos uma ação negociada em Nova York. Parece que o mercado financeiro já é completamente digital, mas digitalizamos principalmente a parte que enxergamos.

Bolsas ainda fecham, liquidações seguem horários e calendários, ativos vivem em sistemas diferentes e garantias muitas vezes ficam paradas. O dinheiro ainda atravessa uma sequência de instituições e países para chegar de um lugar a outro.

Existe, portanto, uma diferença importante entre um ativo digital e um ativo programável. Digitalizar muda onde enxergamos o ativo. Torná-lo programável muda o que podemos fazer com ele.

Em 1971, quando a Nasdaq começou a operar, ela não inventou uma nova ação. Criou uma forma eletrônica de mostrar preços e conectar participantes do mercado. Décadas depois, computadores passaram a executar em frações de segundo decisões que antes dependiam de operadores no telefone ou no pregão. O ativo continuava sendo uma ação. O que mudava era o ambiente ao redor dela.

A internet passou por algo parecido. Seu impacto econômico não veio simplesmente de transformar jornais, fotografias e cartas em arquivos digitais. Veio quando a informação passou a poder ser distribuída, pesquisada, copiada, combinada e processada praticamente sem custo. Talvez estejamos começando a fazer o mesmo com o capital.

E é aqui que a inteligência artificial entra nessa história. Hoje só se fala de IA, e faz sentido. Pela primeira vez estamos reduzindo de forma brutal o custo de processar informação e tomar determinadas decisões. Mas um mercado precisa de duas coisas: alguém capaz de decidir e capital capaz de agir. A inteligência artificial pode acelerar a decisão. A tokenização pode acelerar o capital.

Quando essas duas curvas se encontram, a consequência pode ser mais profunda do que simplesmente termos os mesmos mercados funcionando 24 horas por dia. Podemos ter mercados com outro ritmo, com mais preços sendo formados, mais oportunidades sendo disputadas e mais ativos sendo usados como garantia. O mesmo capital poderá mudar de função com muito mais facilidade.

Isso também muda a maneira como pensamos liquidez. Normalmente tratamos liquidez como uma característica do próprio ativo, mas um dos dados mais interessantes do relatório sugere outra coisa. Um instrumento extremamente líquido no mercado tradicional pode ser quase parado quando colocado em blockchain. O problema não está necessariamente no ativo. Pode estar na estrutura criada ao redor dele.

Ações tokenizadas, por exemplo, tiveram um volume negociado equivalente a 204,6% do seu valor em junho. Produtos ligados a juros, apenas 0,1%. É uma diferença de aproximadamente 2.000 vezes. Isso não significa que um título público seja um ativo pior. Significa apenas que ativos diferentes precisam de estruturas diferentes para circular.

A história dos mercados financeiros é, em grande medida, uma história de redução de barreiras. O telégrafo reduziu a distância. O ticker acelerou a chegada dos preços. Os mercados eletrônicos reduziram a dependência do pregão. O computador acelerou as negociações. A internet reduziu o custo de distribuir informação e produtos financeiros. Cada vez que uma dessas barreiras caiu, não tivemos apenas mercados mais rápidos. Tivemos mercados diferentes.

Agora podemos estar reduzindo duas barreiras ao mesmo tempo. A inteligência artificial diminui o custo de decidir, enquanto a programabilidade diminui o custo de o capital agir.

Em 2017, enquanto muita gente tentava descobrir quanto valeria o Bitcoin, outros tentavam descobrir como fazê-lo funcionar em escala. Hoje talvez estejamos cometendo o mesmo erro quando perguntamos quantos trilhões serão tokenizados ou quanto valerão as empresas de inteligência artificial. Continuamos olhando para o placar, quando talvez a pergunta mais importante seja o que acontece quando inteligência e capital passam a operar na mesma velocidade.

A próxima transformação dos mercados talvez não seja medida pelo valor dos ativos, mas pela velocidade com que o capital consegue mudar de mãos, de função e de risco.

Sobre o autor

Por Bernardo Bonjean, CEO da Metrix, com apoio do Dr. Metrix, head de análise da empresa, um sistema proprietário de Inteligência Artificial especializado em análise on-chain, infraestrutura blockchain e ativos digitais.

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Fonte: Portal do Bitcoin

Perguntas frequentes

Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.

Sobre o que trata “Esqueça o preço do Bitcoin”?
Em maio de 2017, milhares de pessoas se reuniram em Nova York para o Consensus. Naquela semana, o Bitcoin saltou de cerca de US$ 2 mil para US$ 2,5 mil. Era difícil falar de outra coisa.…
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