INTERNACIONAL
China amplia pressão marítima sobre Taiwan e desafia regras no mar
A crescente pressão marítima da China sobre Taiwan é uma tentativa de redefinir as regras no mar, alertaram diplomatas estrangeiros…

A crescente pressão marítima da China sobre Taiwan é uma tentativa de redefinir as regras no mar, alertaram diplomatas estrangeiros em Taipé. Ao mesmo tempo, o principal representante dos EUA na ilha questionou a visão de que Taiwan estaria pouco preparada para enfrentar um eventual bloqueio.
“Não se trata apenas do número de navios chineses ao redor de Taiwan, que continua crescendo”, disse no sábado (19) Ruth Bradley-Jones, representante de fato do Reino Unido em Taipé. Segundo ela, a atividade naval chinesa nos últimos meses foi “duas ou três vezes maior do que em 2025”. Mas o mais importante, afirmou, é “a forma como a pressão marítima está sendo exercida”.
A diplomata britânica destacou a transição da pressão militar convencional para o que Pequim chama de operações de “fiscalização”, o que, segundo ela, “está mudando a narrativa sobre quem controla os mares”. Outro elemento é o uso de embarcações comerciais pela China como multiplicador de força.
“A questão não é mais apenas o que acontece em Taiwan, no Estreito de Taiwan, e como defender a ilha, mas quem define as regras das águas ao redor de Taiwan e da Primeira Cadeia de Ilhas”, disse. O arquipélago se estende do Japão a Taiwan e às Filipinas.
Os comentários ecoaram alertas recentes de Joseph Wu, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional de Taiwan. Em entrevista ao “Nikkei Asia”, ele afirmou que o uso de navios da Guarda Costeira e de outras embarcações para disfarçar a pressão marítima como operações policiais de rotina representa um novo desafio para Taiwan, Filipinas e Japão.
Bradley-Jones participou de um painel no segundo Fórum Internacional “Taiwan Resiliente para a Democracia Sustentável”, em Taipé, ao lado dos representantes dos EUA e da União Europeia, Raymond Greene e Lutz Guellner. O evento contou com a presença do presidente de Taiwan, Lai Ching-te, poucos dias antes do encontro entre os presidentes Xi Jinping e Donald Trump, em Washington.
Regras no mar
Guellner, chefe do Escritório Europeu de Economia e Comércio em Taiwan, concordou que há uma “erosão das regras do jogo” nas águas ao redor da ilha, com paralelos em outras partes do mundo. Ele defendeu novas formas de proteger a infraestrutura marítima, incluindo cabos submarinos.
Outro ponto crítico é a segurança energética. Observadores alertam há anos para o risco de a China transformar exercícios militares ou operações de fiscalização em uma quarentena ou bloqueio de Taiwan, interrompendo o fornecimento de combustível e outros produtos essenciais. A ilha importa quase todo o petróleo e o gás natural que consome.
Greene, diretor do Instituto Americano em Taiwan, afirmou que os EUA querem ser parceiros da ilha em segurança e resiliência energética. Segundo ele, empresas como GE Vernova e Bechtel trabalham com Taiwan em geração de energia, armazenamento de gás natural liquefeito (GNL), terminais de recebimento, células de combustível e baterias.
Ele reconheceu a necessidade de ampliar a preparação para desastres naturais e crises geopolíticas, mas disse que Taiwan “fez progressos maiores do que muitas pessoas imaginam”.
Greene citou o debate sobre as reservas de GNL da ilha, estimadas em 11 a 14 dias, e afirmou que esse dado, isoladamente, não determina por quanto tempo Taiwan conseguiria resistir a uma crise. O país também pode recorrer a racionamento, energias renováveis e reservas de carvão, além de ampliar fontes domésticas de geração.
Para ele, a questão também precisa ser vista pelo impacto global de uma interrupção do comércio com Taiwan. Estudos indicam que uma crise no Estreito de Taiwan provocaria um grande desvio do tráfego marítimo e fortes perdas econômicas.
“Acho que esse cronograma é muito mais curto e muito mais severo do que qualquer cronograma relacionado à segurança energética de Taiwan”, disse Greene.
Guellner foi mais crítico em relação à vulnerabilidade energética da ilha e defendeu avanços na diversificação das fontes e na eficiência energética, especialmente em energia eólica offshore e solar.
Integração
Bradley-Jones defendeu maior integração entre órgãos do governo, empresas e áreas de tecnologia e recursos humanos.
A separação entre instituições como Guarda Costeira, Marinha e Ministério Digital “cria vulnerabilidades exploráveis em nossos sistemas e processos, principalmente quando o adversário não cria essas compartimentalizações”, afirmou.
O Conselho de Segurança Nacional, comandado por Wu e subordinado ao Gabinete Presidencial, vem ganhando importância na coordenação de reformas de resiliência que envolvem diferentes áreas do governo.
A diplomata britânica também destacou o papel do setor privado. Citou a crise no Estreito de Ormuz, no Oriente Médio, onde a guerra e as ameaças à navegação desestabilizaram o mercado de seguros, elevaram os prêmios e levaram ao cancelamento de apólices, impedindo navios de atravessar a região.
“O seguro de navios é absolutamente crucial para garantir a confiança”, disse. “É o setor de seguros que define o limite de risco global. O seguro contratado decide se esses navios podem navegar ou não.”
Apesar dos desafios, Bradley-Jones mostrou-se otimista com a preparação de Taiwan. “Estou muito impressionada com a rapidez com que Taiwan está avançando”, afirmou.
Fonte: Valor Econômico
Perguntas frequentes
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