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Apagão põe à prova aposta da Ásia Central em rede elétrica integrada e com data centers
Os planos da Ásia Central de ampliar a conectividade energética, ao mesmo tempo em que constrói data centers de alto…

Os planos da Ásia Central de ampliar a conectividade energética, ao mesmo tempo em que constrói data centers de alto consumo de energia, estão sob monitoramento após um apagão atingir quatro países recentemente.
Uma interrupção na geração de cerca de 600 megawatts no Quirguistão, em 14 de agosto, foi seguida em questão de minutos por cortes de energia em todo o sistema interligado, deixando vastas áreas do Cazaquistão, Uzbequistão e Tajiquistão sem eletricidade por até algumas horas.
O apagão levanta dúvidas sobre a capacidade da região de conter perturbações em um momento em que triplica sua capacidade de transmissão transfronteiriça e a demanda por refrigeração dispara.
“Esses incidentes costumavam ocorrer no inverno, mas esta é a primeira vez que acontecem no verão”, disse Olzhas Baidildinov, ex-assessor do ministro de Energia do Cazaquistão, que atribui a falha ao lado cazaque. “Caso ocorra uma perda de grande capacidade, o sistema elétrico deve mudar para um circuito fechado, e a eletricidade deve permanecer no país. Isso não aconteceu.”
Projetos de computação que devem consumir, futuramente, 1,5 gigawatt de energia já estão em andamento. O Banco Mundial está financiando a implementação de um mercado regional de energia com duração de 10 anos. A saudita DataVolt está construindo seu primeiro data center em Tashkent, com previsão de entrada em operação até o fim do ano; e a primeira fase do “Data Center Valley” do Cazaquistão — apoiado pela Nvidia e pela Firebird — poderá estar pronta até junho do próximo ano.
Os países ainda divergem sobre a causa do apagão. O Ministério de Energia do Quirguistão informou na segunda-feira que dois geradores da usina hidrelétrica de Toktogul sofreram uma interrupção momentânea — apontando isso como a perturbação inicial —, mas rejeitou a responsabilidade pelo que se seguiu. O sistema havia retornado à normalidade antes do colapso do nó da rede na cidade de Almaty, segundo o ministério, e o Quirguistão estava fornecendo cerca de 250 MW aos países vizinhos.
A operadora cazaque Kegoc afirmou que a perda de carga do lado quirguiz gerou um desequilíbrio em seu sistema de distribuição, resultando em interrupções nas linhas de transmissão. Analistas explicam que, quando a geração cai, a frequência e os fluxos de energia se alteram em segundos, e reservas e mecanismos de proteção automática deveriam ser acionados para conter a perturbação.
A Ásia Central opera com uma rede interligada destinada a regular o abastecimento de energia na região. A energia hidrelétrica gerada a montante, no Quirguistão e no Tajiquistão, e os sistemas fortemente baseados em termelétricas a jusante, no Cazaquistão e no Uzbequistão, atingem seus picos de produção em estações diferentes, permitindo que os países supram as lacunas uns dos outros.
Quando um efeito cascata semelhante causou um apagão na Espanha e em Portugal em abril de 2025, a perturbação afetou brevemente o sudoeste da França, mas o sistema europeu mais amplo resistiu.
“A verdadeira questão é se o sistema dispõe de monitoramento, capacidade de reserva, proteção automática e procedimentos de emergência acordados suficientes para isolar uma grande perturbação antes que ela se propague em cascata”, disse Sobir Kurbanov, pesquisador da Nightingale Intelligence, uma consultoria focada na Ásia Central. Um sistema operado adequadamente deveria isolar a parte afetada antes que a região se desestabilizasse, afirmou ele.
Citando investimentos recentes na rede, o Uzbequistão afirmou possuir um mecanismo de proteção que ajudou no dia 14 de agosto: sistemas de armazenamento de energia capazes de liberar eletricidade rapidamente em momentos de tensão.
O Cazaquistão e o Quirguistão abriram investigações separadas; enquanto isso, Bishkek argumenta que as interrupções de energia além de suas fronteiras exigem uma análise do que ocorreu dentro daqueles sistemas. Quando o Cazaquistão enfrentou um grande apagão em janeiro de 2022, uma comissão interestadual levou sete semanas para apresentar um relatório sobre o que realmente aconteceu.
A implementação de um mercado regional de energia apoiado pelo Banco Mundial, que visa atingir 16 GW de capacidade de transmissão, tem como objetivo reforçar a segurança energética e aumentar a cooperação; no entanto, sua primeira fase de financiamento beneficia apenas o Quirguistão, o Tajiquistão e o Uzbequistão, deixando o Cazaquistão de fora nesta rodada.
“A resiliência regional não pode ser alcançada, em última análise, modernizando-se três sistemas nacionais enquanto se deixam sem solução gargalos críticos em outras áreas”, disse Kurbanov.
Este inverno colocará o sistema à prova novamente. No ano passado, o Cazaquistão consumiu 1,5 bilhão de quilowatts-hora a mais do que gerou, e suas opções de balanceamento são limitadas. As usinas a carvão, responsáveis por 70% da geração de eletricidade cazaque, não conseguem aumentar a produção rapidamente e foram projetadas para produzir calor simultaneamente à eletricidade, explicou Baidildinov; ao mesmo tempo, o gás é importado e a geração hidrelétrica está em declínio devido ao recuo das geleiras.
O Cazaquistão tem como meta suprir a demanda internamente a partir de 2027 e, até lá, depende da empresa russa Inter RAO, que foi alvo de sanções da União Europeia em julho. O Uzbequistão enfrenta uma versão diferente dessa pressão: a produção está aumentando, mas cerca de 10% da demanda não é atendida, segundo o Banco Mundial.
É nesse cenário que entram os grandes centros de dados em ambos os sistemas. Ekibastuz, uma cidade de mineração de carvão no norte do Cazaquistão, garantiu uma subestação de 215 MW para a construção de seu data center, enquanto a TAS-1 planeja obter energia principalmente da rede elétrica do Uzbequistão.
Em operação contínua, 12 MW equivalem a cerca de 0,12% da geração prevista para o Uzbequistão em 2025, enquanto um portfólio de 500 MW representaria aproximadamente 5%, afirmou Umud Shokri, estrategista de energia e pesquisador visitante sênior da Universidade George Mason. Nessa escala, seriam necessários investimentos em geração dedicada, armazenamento e infraestrutura de rede para evitar que essas instalações competissem com o consumo residencial nos horários de pico, disse ele.
Os 12 MW iniciais são um volume modesto em escala nacional; já a meta de 500 MW levanta uma questão mais complexa sobre quanto da demanda ininterrupta o sistema consegue absorver em momentos de oferta restrita.
A PJM, maior operadora de rede elétrica dos Estados Unidos, propôs em 13 de agosto que as concessionárias reduzissem ou transferissem novas cargas de grande porte que não contassem com geração correspondente suficiente, evitando assim que a escassez de energia afetasse os consumidores tradicionais. Kurbanov defende uma medida mais rigorosa, argumentando que os órgãos reguladores da Ásia Central deveriam exigir que as maiores instalações financiassem uma parcela significativa de suas necessidades adicionais de energia.
Aruzhan Meirkhanova, analista sênior da Outpost Eurasia, contrapõe que a resiliência é incorporada desde a fase de projeto, por meio de normas de certificação e sistemas de backup destinados a limitar a exposição a interrupções no fornecimento da rede.
“É muito cedo para classificar o ocorrido na sexta-feira [14 de agosto] como um fenômeno sistêmico ou um risco estrutural específico para os data centers”, afirmou ela. “Alguns data centers podem optar por operar totalmente fora da rede elétrica. Essa é uma decisão que cabe aos investidores e depende de sua capacidade financeira e apetite ao risco.”
24/08/2026 22:40:03
Fonte: Valor Econômico
Perguntas frequentes
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